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New York, La Buena…>>24-08-2007 New York. Cheguei. Sinto-me flutuar num vazio indefinível. Do outro lado do rio desenha-se um dos mais fotografados contornos do mundo: Manhattan. Ali mesmo à mão de semear, quase lhe toco com os dedos. É a minha meta. É o fim da minha aventura, longa, que me recuso a saldar. Não ouso sequer misturar na subtileza do momento recordações de tanto tempo de estrada. Entrego-me apenas ao requinte afiado desta muralha de arranha-céus que me hipnotiza sem desafio. Parece-me tão irreal quanto eu estar aqui mesmo à sua frente, quanto eu olhar para a minha mota e as suas mazelas de viagem, para um conta-quilómetros que foi rodando, rodando… Este momento, mais que gasto por antecipação no pensamento, nada tem de novo a oferecer, a não ser esta apatia estranha que disfarço. Vem do cansaço sim, mas também de me sentir ultrapassado pelo que está à minha volta, sem tempo para interpretar. ‘Muitos parabéns!’, ‘Que viagem, hã?’, ‘Sempre chegaste!’, ‘Tira uma aqui comigo e com a mota!’. Abraços, apertos de mão, sinceros, que apreciei francamente sem no entanto me sentir verdadeiramente presente. Os últimos dias da travessia dos Estados Unidos passaram velozes, esvaziando pela planície fora o interesse inicial das montanhas do ocidente. Desde os precipícios do Grand Canyon, cuja espectacularidade senti diluída nas multidões de turistas que sempre roubam parte do fascínio, apenas o Monument Valley me encheu as medidas. De torreões facetados e achatados entre um céu baixo e um chão amplo, areia vermelha semeada de pequenos tufos de cactos verdes e pardos.Depois veio Durango e com grandes estiradas alcançámos Denver quase ao mesmo tempo que Sérgio, o brasileiro, recém chegado do Alaska, com o seu jipe menos estanque desde o acidente e do arranjo assucatado de Rio Dulce, Guatemala. ‘Tenho andado dirigindo de fato de chuva que nem você!’. Com ou sem água a entrar pelas borrachas, foi lá! Fomos recebidos em casa da irmã com a melhor comida e grande carinho. Quando já tudo dormia, demorei-me com ele na conversa. Ouvi com gosto os seus relatos do duro caminho até Prudhoe Bay. Retribui com peripécias minhas da Baja California e Oeste americano. Entre linhas, senti-nos combater alguma nostalgia que atacava o final da aventura. Parti de Denver refeito, entre mútuas promessas de visitas a Portugal e Brasil.Enfrentámos então a monotonia persistente do interior do país. Planícies tremendas e ventosas, pastagens verdejantes e enfadonhas, pintalgadas com típicos rolos de feno castanhos, enormes, prontos a transportar. Até que finalmente Chicago marcou um compasso diferente, pelo menos por dois dias. Cidade elegante, arrojada, distinta, dinâmica, de vielas escuras e sujas entre edifícios espelhados de corte estilizado. Os comboios urbanos passeando desnivelados a voar por cima das avenidas, dos semáforos e dos magotes de pessoas. Do cimo da Sears Tower o azul do Lago Michigan contrastava com o beje escuro da baixa e a oeste a cidade aparecia rasgada pelos meandros dos rios e pelas colossais vias rápidas, com cinco ou seis faixas totalmente congestionadas, tentando escoar um trânsito impossível por entre infinitos viadutos e entroncamentos aéreos megalómanos.Esqueci a minha visita a Toronto e rumei a Baltimore, onde deixei o Gonçalo Maia, claramente vitorioso pelo fim da sua travessia coast-to-coast. Eu também estava perto do meu destino, mais perto que nunca. Visitei em Washington a Casa Branca e o Capitólio, mas já de cabeça posta na chegada que outra coisa. Novamente a solo fui perder-me num pôr-do-sol fotogénico de Philadelphia e aterrei uma noite por lá. ![]() No dia seguinte tive a companhia de três simpáticos portugas que vieram de propósito desde New Jersey para me guiar nos quilómetros finais até Newark: o Eusébio, o José Carlos Rodo e o José Carlos Cerqueira. Foi uma escolta mesmo agradável, a permitir a descontracção de estar em boas mãos, sem pensar em placas nem quilómetros. À saída de Philadelphia, o GPS do Eusébio resolveu apresentar-nos o lado menos turístico da cidade, cortando a direito e fazendo-nos cruzar bairros degradados, numa versão bem realista destes gigantescos aglomerados americanos: cara lavada e subúrbios muito complicados, a evidenciar que as infra-estruturas nunca chegam para todos. Subitamente e como se uma barreira invisível mantivesse dois mundos separados, começaram a suceder-se luxuosas vivendas de enormes todo-o-terreno à porta. Pergunto-me como é viável esta segregação tão exagerada. De resto, os Estados Unidos têm vindo a confirmar algumas expectativas negativas em relação vários aspectos socio-culturais, a incluir estes desequilíbrios, mas principalmente uma profunda falha de atitude, camuflada com cada vez mais regras.Dormi em Newark, em casa de portugueses, guardando para Sábado a entrada simbólica na grande capital, de bandeira patriótica ao vento, seguindo nova escolta e encontrando uma comitiva recheada de amigos nesse ponto combinado, que era o final do meu gigantesco itinerário. Até o Mr. Price lá estava! Eu, alheado, mantinha-me em órbita num planeta distante. Como dizia o Sérgio, nós sabemos que não foi uma simples viagem. Não é fácil representar o que foi. Descobri também que é mais fácil não saber o que foi ao lado de alguém que partilha essa sensação de vazio, de perda de referências, a misturar sonho e desafio, medo e sofrimento, limitações e força de vontade. Passeando agora pelas luzes de Nova Iorque, em boa companhia, vou-me perdendo em divagações de quem voa ainda estrada fora, num caminho que não acaba. Não tenho afinidades com esta turbulência e ao mesmo tempo o meu silêncio interior cabe aqui como uma luva. Incógnito por entre o movimento interminável de Times Square, onde a noite é dia, vem-me à memória o entusiasmo do primeiro relato, “O Início”. Recordo-me da excitação que é arrancar e ser transportado para esse estado de transe de quem viaja. O bafejo de um sentido natural para as coisas. A certeza de pertencer a algo maior, com lógica. O prazer simples de olhar. Ao fim de tantos meses quanto tempo me levará a re-sintonizar? Mantenho-me nesse transe, impávido e sereno, e nem o medo do regresso e da lamentável conta bancária me parece perturbar. Tenho ainda algum tempo, desse que corre numa frequência à parte, desse que é verdadeira riqueza, sem dias contados pelos dedos prestes a afogar-se na rotina uma e outra vez, muito de longe a longe.Na bagagem trago muitas maravilhas para digerir e outras tantas saudades de Casa. Dessa Casa grande, com família e muitos amigos dentro, sítios bonitos e cafés que sei de cor a servir coisas boas que não provo há tanto. Venho cheio destas necessidades que todos os dias me passavam ao lado, e sei que vou sorrir a cada uma delas, por um bom tempo. Era disso que precisava quando parti. E depois? Depois não sei. Primeiro tenho que descobrir quando é isso, porque este Agora parece estar para durar… Texto também disponível em www.visaoonline.pt Comentários Lindo É lindo! por David Pinto em 2007-08-24 10:23:51 Saudades ? "Saudade do que fiz. Saudade do que não fiz. Não sei qual delas dói mais." - Valter da Rosa Borges por Vagueante em 2007-08-24 10:32:37 ... ..."E depois? Depois não sei. Primeiro tenho que descobrir quando é isso, porque este Agora parece estar para durar… " essa viagem transformou-te e conseguiu que fizesses uma grande proeza "apreciar e prolongar o presente", "esticar o tempo". Beijo Cidália por Profundo... em 2007-08-24 11:03:13 fabuloso Adorei ler esta crónica, está fabulosa, tal como as fotos que a acompanham. Foi óptimo seguir esta aventura contigo, desde Argentina até NY, foi mesmo excelente. Carpe Diem por alexandre em 2007-08-24 12:14:08 Sinceros Parabéns! Simplesmente magnífico. Esperava o post de remate final, como a cereja em cima do bolo, e eis que surgiu. Boas fotos, boa capacidade de escrita e uma narração, que nos faz sentir no local. SINCEROS PARABÉNS!!!! por agarcia em 2007-08-24 12:59:31 re-sintonizar é um perigo ;-) http://www.youtube.com/watch?v=4tVXvjO0Jvc&mode=related&search= por isa em 2007-08-24 13:28:02 Para quando a chegada a Portugal? Gostava de saber para quanto está prevista a tua chegada a terras Lusas e se chegas pelo Aeroporto do Porto. Tinha imenso gosto cumprimentar-te e dar-te os parabéns pessoalmente. por Paulo Oliveira em 2007-08-24 21:24:55 Triunfo É simplesmente triunfal! por sao.o em 2007-08-25 12:01:40 Parabéns!!! Adorei toda esta aventura. Espero que se sigam outras mais. Parabéns e bom regresso. Uma ideia: reunir todo este pessoal que te acompanhou para uma almoçarada?!! por Pedro Renato em 2007-08-25 15:07:48 Desculpa o meu francês!!! Foda-se!!!Tá feito!O Dostoievski jogou mas tu jogaste bem melhor!Mata,matas-te a jogada.Bem mereces!Viva os aventureiros,és o nosso Magalhães! Ansiamos o teu regresso.Muitos parabéns,beijos e abraços do Portugal Azul RTP!KUKI SILVIA NUNO VIEIRA por kuki em 2007-08-25 19:15:30 ... o sonho comanda a vida ... .. que este Agora dure o tempo que desejar, só o Gonçalo o saberá ! O regresso ao lar doce lar seja saboreado calmamente a sorrir como diz, sempre. São as coisas simples que nos fazem grandes! por elizabeth carvalho em 2007-08-25 20:01:44 Terminar em beleza Fui leitor atento de todas as crónicas desde Buenos Aires. Esta última, de NY, está fabulosa. Os meus parabéns e bom regresso. Um abraço. por José Sousa em 2007-08-25 23:54:22 Saudades do buenayork!! Esta crónica fez-me lembrar as primeiras, em que sabiamos que era o início de uma corajosa aventura e todos te quisemos acompanhar, aqui no buenayork! Sinceros parabéns por patricia em 2007-08-26 21:17:17 Parece que foi ontem... Ainda à dias estávamos a discutir as cores do dossier do projecto para os possíveis patrocinadores e já está! Num ápice chegaste a NY com mais história que estórias... Belíssimo! Estou mortinho por te dar aquele abraço tripeiro... Téjazz por hUgUIto em 2007-08-27 00:23:09 Brilhantes Esta crónica é o culminar de meses de uma viagem fabulosa, acompanhada de relatos brilhantes. Tinhas que ser um homem do norte, carago!!!!! rp por Rui Pinheiro em 2007-08-27 10:28:23 Destino ao objectivo Já tudo foi dito, tudo o que pudesse dizer resultaria numa redundancia, portanto limito-me a dar-te os parabéns ... e obrigado pela maravilhosa aventura que partilhaste connosco. Um abraço, e até sempre por Manuel Teixeira em 2007-08-27 16:48:50 Bem-vindo Parabéns, Gonçalo. Agora vai-te saber bem aquele cozido à portuguesa, aquele bacalhau de Natal, aquela francesinha, aquele café expresso. Sê bem-vindo a casa!!! por Filipe Morato Gomes em 2007-08-27 18:52:28 E o nosso "AGORA?" Pois...e agora, q crónicas é q vou ler e aguardar com aquele bichinho no estomago ? Parabéns pela tua vitória Bjs por Clara em 2007-08-27 20:05:02 Parabéns. Foi um prazer viajar contigo. Os teus relatos e fotografias permitiram-me, durante muitas vezes, uma abstração quase total da realidade circundante. Obrigada por isso e Parabéns por tão herculiana viagem! por Marlene em 2007-08-28 10:47:43 Saudades... Olá Gonçalo, fica aqui expresso o nosso bem haja por todos os momentos deliciosos que nos propuseste ao longo destes meses! Esperamos por mais noticias, se possível para poder acompanhar-te no teu regresso ao Porto!!! Até breve Amigo... por nelson&Sofia em 2007-08-28 16:14:22 E agora ?? E agora, Gonçalo?Estava habituado a todos os dias encontrar-te no teu sitio e a viajar contigo, e agora que chegaste ao final desta tua aventura, como vais continuar alimentar este meu vicio?? Muitos parabens e espero ter o previlégio de te conhecer pessoalmente. Grande braço. Gil por Gil Alcoforado em 2007-08-28 17:48:08 Mais uma vez parabens Obrigado mais uma vez por estes meses em q acompanhar-te foi fazer tb parte dessa aventura extraordinaria. Descansa bastante, repoem as energias e mata as saudades...e já agora começa a pensar noutra aventura como esta. Um forte abraço. Henrique Martins - MONTALVAO - ALTO ALENTEJO por Henrique Martins em 2007-08-29 22:39:14 Parabens PArabéns por teres conseguido levar a cabo um objectivo ENORME, que apesar de todas as dificuldades e contra-tempos, é com sucesso que o terminas ;) Adorei seguir as crónicas! Abraço por Rui Valente aka leonix em 2007-08-30 01:28:55 Fabuloso Não acompanhei a viagem porque não sabia. Li a notícia em Agosto quando estava de férias e fiquei realmente invejoso no bom sentido. Há muito que quero ir à Argentina e Chile, tenho no entanto pavor de andar de avião. Tenho 63 anos mas estou em boa forma física – não fumo mas bebo vinho e água. Sou “Motard” há 33 anos com pequenos acidentes à mistura. Faço BTT e ando a Pé, toco violão razoavelmente e canto. Adorarei ir à Argentina onde um descendente de Portugueses é dos melhores guitarristas clássicos do Mundo. “VÍCTOR VILLADANGOS”. Seus avós partiram de Lageosa da Raia do Concelho do SABUGAL, em 1928 quando uma epidemia vitimou muita gente naquela zona. Vou procurar o máximo de informação e talvez fazer essa viagem com alguma variante. Em princípio iremos dois. Vamos analisar… por Luís Achega em 2007-09-04 13:53:00 Come back to California! As you now know there are tons of great roads here. Glad we had the chance to meet and ride together. Congratulations on your trip! Keep in touch my motorcyclist friend. A~ por Allen Price em 2007-09-21 16:15:06 Buena yourk: o livro Não acompanhei a viagem porque não sabia. Mas dou os parabens ao Gonçalo Gil Mata. porque foi corajoso ao percorrer a america do norte, centro e sul fazendo 40000 km. Não e qualquer pessoa que faz isto. PARABENS por antonio em 2007-12-26 11:57:34 parabens quando for grande quero ser como tu. muitos parabens. E boas viagens. Era fixe que fizesses mais, não era? Para quando outra aventura destas? Bom Natal atrasado e um próspero ano novo. PARABENS. por atum em 2007-12-27 19:08:15 <<< ... >>> Muito mais do que a viagem de sonho, que repousará na efémera eternidade do ser, respeito e admiro a naturalidade com que define sentimentos tão complexos e intensos. Só pessoas munidas de grande sensibilidade e eloquência, possuem a virtude de desenhar sentimentos com as letras. Assim como o poeta... por David em 2008-04-29 18:02:10 bonito Gonçalo, Ler a tua travessia faz acreditar que realmente a vida é para ser vivida. Está ali, diante de nós e só de nós depende. Como um sonho suspenso, intermitente, entre um minuto e o seguinte em que por instantes, somos apenas. A simplicidade dos pensamentos-palavras diluem a barreira das regras formais e exteriorizam a essência do ser, sentir puro. Faz viver sem sair do sofá, faz viajar sem mudar de tempo e de lugar. Raro momento. Obrigada. por Rita em 2008-05-01 11:05:06 Fantastico
Aceita a minha inveja, pois tiveste a coragem de realizar um dos meus sonhos. Sinceros parabens. Quanto ao livro, vai na linha do Long way round só que muito melhor. Na escrita e na forma como viajaste. FANTÁSTICO. PARABÉNS. Repete, inova, conta-me histórias. por Eduardo em 2008-06-24 22:15:52 | ||||